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O futuro já começou

27 de março de 2012
Encontrei-me em 2012 num lugar estranho mas tão comum nos dias que correm: na recta final da corrida dos 20 anos e sem emprego. Com experiência profissional suficiente para que as minhas candidaturas não sejam consideradas em determinadas empresas (nomeadamente as muitas que estão a privilegiar os estágios profissionais do IEFP), mas aquém daquela que me permitiria (quem sabe) receber um convite para um “emprego de sonho”, as perspectivas de voltar a trabalhar nos tempos mais próximos são quase nulas.

Não deixo de tentar, é certo; simplesmente não consigo acreditar nessa hipótese. É natural, creio. Assistimos impotentes à criação de condições para o despedimento facilitado, ao encerramento de empresas, a despedimentos colectivos, ao crescimento do número de inscritos no Centro de Emprego. As revistas estão a fechar, os jornais a dispensar, se me quiser centrar na “minha área”, o jornalismo. Mas, afinal, que interessam as áreas de formação hoje em dia?

Quantas pessoas conseguem um emprego que as satisfaça plenamente? Quem da minha geração está firme numa empresa, a ganhar bem e a pensar em comprar casa e ter filhos? Não há empregos para a vida. Todos somos substituíveis. As cabeças passam a números – ou rendes ou estás fora. Nem sempre a tua criatividade e o teu conhecimento são mais-valias que contem para a equação. Muito menos ainda a tua bondade e lealdade para com uma empresa.

Nada disto é novidade. É a crise, dizem. E o que está a acontecer em muitas organizações é o “salve-se quem puder”. Ao invés de a união sair fortalecida, é o sentimento de desconfiança para com os colegas de equipa que se impõe. “Quem será o primeiro a ser despedido?”, ouve-se o burburinho nos corredores. Eu só quero salvar o meu rabo. Mas nem isso é fácil perante a ameaça do desemprego – a tendência é a desmotivação.

Do lado dos patrões, passam-se coisas bem mais sórdidas. Muitos desses senhores evocam a conjuntura actual e dela lavam as suas mãos. E acham-se no direito de fazer terrorismo psicológico para com os seus subordinados.

“Você tem é muita sorte por estar a trabalhar.”
“Cuidado, se for despedido vai para onde? Não vai arranjar mais nada.”
“É bom que consiga atingir os seus objectivos – não faltam aí é pessoas no desemprego, desesperadas por uma oportunidade.”

A crise, a falta de dinheiro e o esforço para evitar a falência transformaram de facto muitos empregadores em monstros prepotentes. É como se sair todos os dias de casa para ir para o escritório fosse apenas um privilégio para quem precisa de trabalhar, não um valor fundamental para o bom funcionamento e crescimento (ou salvação) de uma empresa. Como se nos estivessem a fazer um favor, não sendo nós uma peça-chave, parte de todo um sistema, para o negócio continuar a rolar. E nem vou entrar pelo tema dos estágios não remunerados, trabalho precário e demais abusos.

Depois deste triste discorrer, foquemo-nos no lado bom do desemprego. Sim, por vezes ele existe, e eu tenho conseguido desvendá-lo. Antes que me acusem do que quer que seja, explicito: tenho noção de que cada caso é um caso e que para muitos estar sem emprego é efectivamente sinónimo de dívidas e fome. Felizmente não é esse o meu caso, e pretendo assim aproveitar esta benesse da melhor forma. Estou, sublinho, a falar de mim – e de quem se possa identificar comigo. O que é facto é que acredito que nada acontece por acaso, e esta minha nova condição abanou-me da cabeça aos pés, no bom sentido. É que depois do sentimento de que fora injustiçada, depois da frustração de sair de uma empresa pela qual dei o litro, depois de muitas interrogações e da sensação de ficar sem chão e rumo, encontrei a energia e a orientação para lutar pelos meus sonhos. Desacomodar-me de um lugar numa empresa traduziu-se numa motivação sem precedentes para melhorar, como pessoa e profissional. Terminar o meu mestrado com bons resultados para ver aberto o leque de opções profissionais numa área com mais oportunidades é apenas o primeiro dos compromissos que firmei comigo própria. O segundo é o empreendedorismo.

“Choose a job you love, and you will never have to work a day in your life” – subscrevo as palavras de Confucius, com que ainda hoje me cruzei no Facebook. É precisamente esse o ponto. Há quem tenha ideias de projectos e nunca as chegue a pôr em prática, por falta de energia e tempo. Uma situação de desemprego é o momento ideal para valorizar o nosso conhecimento, criatividade e capacidade de trabalho – algo que muito provavelmente o nosso antigo empregador não fez – e explorar uma oportunidade de negócio. Gerar emprego, nem que seja apenas para nós próprios. O empreendedorismo por necessidade não tem de ser menos tido em conta do que o empreendedorismo derivado da inovação, de alguma tecnologia revolucionária, de uma patente valiosíssima. Se cada um tentasse criar o seu próprio emprego e uma parte fosse bem sucedida já seriam maravilhosas notícias para Portugal.

Há que escolher bem as ferramentas para trabalhar no nosso sonho. Para mim, a mais importante é mesmo o networking. Se nos conseguirmos rodear de especialistas nas diferentes áreas de que o nosso negócio vai depender, e beber do seu conhecimento, desbravar caminho será mais fácil. Para quem não tem qualquer noção de como começar, aconselho vivamente um curso breve e/ou a participação em eventos de empreendedorismo (como o StartMeUp do NOVA Entrepreneurship Society, realizado no passado sábado). Ao contactarmos com empreendedores, as metas parecem-nos menos longínquas. Tudo é possível – e no tudo inclui-se a questão do financiamento, que é talvez a mais desencorajadora. Perante uma ideia verdadeiramente boa, o investimento surge.

Há tempos retive também uma declaração do Miguel Gonçalves, o empresário e criativo do Norte que começou por chamar a atenção no programa Prós e Contras da RTP. Também quem (ainda) está empregado e não está a fazer aquilo de que gosta deve procurar uma saída. “Se por qualquer motivo ainda não conseguiste criar uma oportunidade na área, no negócio, no mercado onde queres trabalhar, trabalha das nove às três ou às quatro numa área que te permita pagar contas e a partir daí, até ao final do dia, trabalha no sonho, na paixão”, disse aqui. Apesar de nunca ter partilhado nenhum dos vídeos virais deste jovem no Facebook, a entrevista fez-me imenso sentido.

É que o nosso futuro já começou, e não deveria ser apenas o desemprego a lembrar-nos disso.

“If opportunity doesn’t knock, build a door.”
Milton Berle (1908-2002)
1 comentário on "O futuro já começou"
  1. oh minha querida, muito obrigada por este texto com o qual eu não poderia concordar mais! e é giro que me encontro exactamente no mesmo ponto que referes: trabalhar numa coisa que pague contas para depois me dedicar às minhas paixões e ao empreendedorismo. é a única saída - e vai funcionar, eu sei que vai.

    vou linkar isto no meu blogue.

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