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Do alto do meu sapato raso

4 de agosto de 2012
Não sou uma mulher de saltos altos. É estranho ser esta uma conclusão recente; pensava eu que tinha os sapatos mais especiais no fundo do armário apenas por um motivo passageiro - estar desempregada. De pijama e pantufas, ou de calções e Havaianas neste início de verão, arrastava-me pela casa entre o lava-loiça e o computador ligado, com uma conversa numa das janelas abertas, um ficheiro .php na outra. E claro que a faculdade, a Segurança Social e os passeios com a Nina não justificavam trajes muito melhores (bem, que o pijama sim).

Por vezes tinha vontade de poder renovar o meu guarda-roupa na totalidade, e pensava no dia em que iria aos saldos e, já em casa, deixaria o rímel e o blush à mão, limparia o pó aos sapatos. Esperava um emprego, um pouco como se este marcasse o regresso a uma vida, enfim, normalizada.

Já tive uma fase na vida em que andava sempre de saltos altos, todos os dias úteis do ano, à exceção dos de férias na praia. Foram 18 meses sem me conseguir encontrar, a tentar manter a postura, a camisa bem passada, a forçar sorrisos. A fingir que era igual e que encaixava entre bem sucedidos profissionais do universo financeiro. Para trás deixara uma vida desregrada e precária na capital, insegura mas decerto mais genuína. Entre dois caminhos tão distintos, o atalho errado para a "felicidade" revelou-se tortuoso. É o que acontece quando pensamos poder trocar o nosso espírito punk indomável por uma pele que não nos pertence. É óbvio que o problema não estava nos pés mas sim na extremidade oposta do corpo.

Ao dia de hoje, as horas desocupadas já tiveram um fim, e encarrilei em mais um novo trilho. E mesmo tendo comprado condizentes roupas novas, os sapatos de salto pareceram nunca mais servir. Por muito que combinem na perfeição com este ou aquele outfit, ou aleijam ou deixam os dedos saídos à frente ou dão mau andar ou – e estes são todos – não gostam do Chiado, da Baixa e dos altos e baixos da calçada portuguesa. É por tal que frequentemente planeio a roupa de véspera, com um dos pares de sapatos negligenciados, mas acabo por à última decidir-me pelas sandálias rasas ou as sabrinas. E saio de casa alegre e rapidamente, dando a minha corrida até ao metro, fintando depois as pessoas, subindo e descendo escadas sem dores. A vida nova é afinal a de sempre, a que encaixa comigo e não aquela à qual a custo me tentava moldar. Aos poucos volto a sentir-me eu, com toda a inconformidade e tumulto que fazem de mim quem sou. Uma jovem mulher sem salvação no mundo dos adultos; uma ovelha negra feliz por ter regressado ao seu rebanho tão exclusivo. Mesmo quando, esporadicamente, usa saltos.
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