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Uma casa feita de papel

19 de agosto de 2012
Aconteceu vai para mais de dez anos. Ele era tudo aquilo que ela procurava para curar um amor antigo, e que nunca encontrara par. Não era um qualquer; era especial. Existia empatia, conversas com sentido pela noite dentro, troca de extensos e intensos e-mails. A novidade. Por tudo isso e mais ainda, o “sexo de qualidade” (assim escreveria uma qualquer revista feminina) chegou, natural e simplesmente, como que por acréscimo. Estava à altura de tudo o resto, estava pois. Até mesmo na quantidade.

Ela não se lembrava de algum dia ter tido alguém que a desejava tão ardentemente como ele aparentava desejar, numa insatisfação que ao invés de acalmar parecia estender-se à medida que os minutos se iam esgotando. Acompanhando ela o ritmo, não a afligia nem um bocadinho semicerrar os estores e passar uma tarde inteira entre lençóis, a deixar entrar apenas metade daquele sol de verão. A luz que mais lhe importava estava na cama. Mas não se tratava de uma luz ao fundo do túnel, apercebeu-se depois. Havia a D. Sempre a D. Quem tem uma D. dificilmente abre mão dela.

A D. era uma daquelas miúdas para a vida, para casar. Adorável, ingénua, devota. “Tens de perceber: ela continuou ao meu lado quando tudo o que eu merecia era ficar sozinho. Já uma mulher como tu nunca aturaria as minhas merdas”, dizia-lhe o rapaz. O mesmo que anos antes lhe confidenciava - “não é amor”, deixando aberta a porta para uma futura aventura mascarada de história de... amor. Por fim, numa daquelas tardes quentes, ainda ofegantes os dois, ele perguntou-se em voz alta – “O que é que eu estou a fazer!? Vou perder a minha namorada.” Não esperou que o corpo arrefecesse, a cama; as peles continuavam coladas a suor. Perante a estupefação, continuou, sem reservas: “Isto contigo eu nem sei bem o que é, no que daria. Vale a pena estar a mandar uma casa abaixo por outra que pode ser feita de papel?”

Postas assim, as coisas nunca tinham sido tão claras. Claro que não valia a pena, concluiu ela ao mesmo tempo que compunha uma nota mental para nunca mais o deixar sentir o cheiro àquela cama, lembrete que dura até aos dias de hoje. Mas o que mais a transtornou, no final, não foi constatar que o comodismo vencera aquele excitante duelo com a paixão. Foi perceber que, também ela e por alguém assim, quase destruíra a sua própria casa, onde era a D. de outro alguém.

O coração tem as suas prisões, que a inteligência não abre. - Marcel Jouhandeau (1888-1979)
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