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A prateleira

16 de agosto de 2013
Como seres humanos, somos inconformados por natureza: raramente estamos contentes com o que temos. Não é questão de a relva ser mais verde do outro lado da cerca; o problema reside antes de mais em simplesmente querer olhar para o outro lado e verificar. Aí as tonalidades já estão deturpadas. Quando estamos bem, felizes e completos, a nossa vida centra-se em nós próprios e em quem está ao nosso lado, nunca nas restantes pessoas. E centra-se no presente, nunca na prisão do passado ou na ansiedade pelo futuro. E a relva é verde.

Muitas vezes guardamos pessoas numa prateleira. São aquelas pessoas de quem gostámos no passado ou por quem nos interessámos mas com as quais - por um motivo ou por outro - o romance, caso ou início de qualquer coisa foi interrompido bruscamente. E como desde sempre ouvimos tolices com roupagem de poesia do estilo "deixa voar que o que é teu volta mais cedo ou mais tarde", aceitamos o rumo da história. Mas nem pensar em colocar a pessoa no lixo. O produto está bom, não é perecível aos nossos olhos e pode bem servir num qualquer momento de apetite, quando o cenário for outro. Portanto, destina-se à prateleira: porque numa qualquer outra fase da vida, quem sabe, a estória ainda pode dar que falar. A prateleira é alta, teremos de esticar o braço se um dia quisermos alcançar o frasco. No entanto, os olhos distinguem-no perfeitamente ao levantar a cabeça, quando passamos por aqueles lados.

Os meses vão passando, depois os anos. Chega o dia em que alguém mexe na nossa prateleira. Alguém gostou, pegou, provou e não quis mais largar. É quando nos dizem: "Sabes o fulano x?" (pausa...) "Casou." Como disse!? Sim, é verdade: manter na prateleira, lançando periodicamente uns olhares para garantir que ainda está ali, não garante exclusividade. De nada. De ninguém. Muito menos de alguém por quem não se teve a ousadia de insistir, de ir atrás, e que confinámos a uma prateleira fria. Grande erro achar que mais ninguém iria reparar nos atrativos do produto. E, com 30 anos, a cada dia que passa há a notícia de mais um casamento, mais uma gravidez, mais um baby shower de amigos que pensámos que se iriam deixar ficar para sempre na esplanada a beber cerveja ou no ambiente de fumo do bar do costume, mantendo-se fiéis aos ideais da adolescência (don't grow up, it's a trap!). É por isso que se deve correr atrás e não deixar ninguém casar na nossa vez. Mesmo que se dispense o "contrato". Porque os finais felizes dos dias de hoje, frequente e felizmente, só dependem de nós.