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Não se ama alguém que não ouve a mesma canção

3 de novembro de 2014
Que o título não induza em erro. Ao contrário da minha melhor amiga, eu não escolho uma possível cara-metade pelo que diz a sua conta de Spotify. Claro que se a dita pessoa tiver como companheiros de iPod a Miley Cyrus, o Aless Gibaja e o Anselmo Ralph, e realmente gostar deles, vamos ter um problema. Mas vivo perfeitamente bem com o facto de eu ouvir rock e hardcore e a "pareja" ser fã de eletrónica, indie espanhol ou reggae (acabei de escrever reggae? Shoot me!).

Neste caso, a "canção" refere-se ao modo de viver a vida e aos projetos que se têm. E isso sim é determinante, por muito bom que seja partilhar um concerto com alguém especial... como o pobre Rui Veloso tanto queria fazer no Rivoli.

E atenção que a música sempre teve um papel muito importante na minha vida. Desde cedo que tenho a mania que sei cantar. Aos dez anos, por influência da minha irmã, fui aprender música. Acabei por só gostar da parte de coro... Por volta dos 16, 17 anos tive a minha primeira banda. Depois, outras. Nunca chegaram longe, ficaram-se por uns concertos na Casa Okupada da Praça de Espanha e em Matacães, mas ainda assim sonhava passar o resto da minha vida em tour. Quando ganhei mais uns aninhos comecei a delirar sonhar com uma ida aos Ídolos. Aos 26, já fora do prazo e com mais tino na cabeça, achei que o caminho seria voltar a ter a minha banda. Até à data não se proporcionou. A vida não acaba por isso! E com o tempo começa-se a achar graça também a outras coisas. Como a ter um trabalho de que se gosta verdadeiramente, uma casa. À ideia de constituir família - mesmo que seja uma família só de dois.

Mas também não é uma equação simples quando a pessoa com quem imaginámos um futuro não quer o mesmo que nós. Quando a pessoa com quem imaginámos um futuro não consegue acompanhar os nossos sonhos. Aquela pessoa que diria, acerca da intenção de ir aos Ídolos, algo como "Estás doida? Que figura." Aquela pessoa que torceria o nariz ao post do Facebook em que afirmavas procurar músicos para uma banda. Aquela pessoa que, perante uma sessão desassisada de cantoria, olharia para ti com cara de cu enquanto dizia "Já chega, não?"

A pessoa com quem imaginámos um futuro também não pode ser aquela com quem nos deixamos ficar no sofá, a ver a Casa dos Segredos, apáticos. Que sem querer põe um travão nos nossos sonhos e projetos pessoais. Aquela pessoa que não nos faz ter vontade de escrever um livro, de cantar pela rua, de cometer pequenas e deliciosas loucuras. De correr o mundo. Que, aliás, nos faz sentir um bocado maluquinhos e irresponsáveis por querer escrever um livro, cantar pela rua, cometer pequenas e deliciosas loucuras e correr o mundo.

Há quem, na casa dos 30, deseje acima de tudo assentar de vez. Não os censuro, eu própria tenho essa vontade. Mas não creio que isso seja incompatível com um certo nomadismo, as ganas de pôr os pés lá fora e até ficar por lá (cá) mais tempo do que aquilo que se esperava. Se viajar pode ganhar proporções de necessidade básica, a pessoa com quem imaginámos um futuro não tem outra opção que não seja acompanhar-nos na satisfação dessa necessidade. Mas, para mim, não são as viagens o grande objetivo de vida. O objetivo é precisamente ter alguém com quem partilhar essas viagens. O objetivo é ter alguém que, diante da grandiosidade de Machu Picchu, tenha vontade de tirar uma selfie comigo, desgrenhada e com um sorriso de tontinha, e não mais uma foto tipicamente turística da cidade perdida dos Incas.

Não me parece que seja um objetivo menor este de (voltar a) encontrar o amor. Não me sinto menos feminista por assumir que quero muito ter um homem ao meu lado nesta barafunda que é a vida. O amor importa. E posso ter desistido de sair em tour, de ir aos Ídolos e de ter uma banda, mas dele não vou desistir nunca.


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