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Fevereiro em Madrid

1 de março de 2015

O ano começou de forma atabalhoada, com uma viagem precipitada na companhia de uma pessoa que conhecia há pouco tempo. Uma relação-flash que começou, avançou e acabou à velocidade do esperado TGV entre Lisboa e Madrid. Este meu comboio de alta velocidade pessoal descarrilou quando ainda nem o pica tinha vindo checar o bilhete. E aquilo que podia ter sido uma bonita conexão Lisboa-Madrid perdeu-se antes de se concretizarem as prometidas caravanas espanholas inspiradas pelos Doors.

Silver and gold in the mountains of Spain
I have to see you again and again 


Com o fim da ilusão mesmo no início do mês de fevereiro, a vida voltou a dar uma reviravolta. Tive de passar o meu primeiro aniversário em Madrid e uma visita à minha cidade no Carnaval de coração partido. Mas sobrevivi aos eventos. Saí para a rua sempre que possível, fui a todas as festas para as quais me convidaram (¡y viva España!), levantei a cabeça e continuei o meu caminho. Porque quando te sentes feliz contigo e realizada, não pode simplesmente vir uma pessoa qualquer e tirar-te isso. E menos ainda quando estás a mais de 600 km de casa. Custou? Sem dúvida. Chorei? Até ficar de olhos inchados. Mas reuni todas as minhas forças para ultrapassar este episódio lamentável e não deixar que me corroesse por dentro durante muito mais tempo.

Com tudo isto, fevereiro parece ter durado não 28 mas sim 365 dias. Num deles, queria por tudo mudar-me, encontrar um espaço mais à minha medida por aqui. Noutro, pensei que seria melhor voltar a partilhar casa, de preferência com amigas. Depois chegaram as ideias peregrinas de me ir embora de Espanha. Felizmente esta confusão mental também passou por aqui montada num jacto, e de repente voltei a encontrar-me a mim própria por entre os fios do novelo onde me tinha enfiado."Olá Meg, 'bora voltar a ser awesome como sempre?"

E chegou aquele momento libertador de deitar a escova de dentes do outro para o lixo, desfazer-me de todas as recordações, mudar a disposição dos móveis e abrir a janela para o sol entrar. De criar o meu canto de escrita, dirigir-me a mim uma vez mais e dizer "Agora és só tu outra vez, menina. E vais escrever."

É incrível como, quando estamos numa relação, nos perdemos um pouco no outro. Sobretudo durante a excitação do início, em que só se quer estar com a cara-metade ou pelo menos a falar com ela quando a presença física não é possível. É tão importante mantermos os nossos projetos e sonhos, e nem sequer os adiar nunca por mais uns meses. Desde novembro que não escrevia nada de relevante fora do trabalho. No entanto, podia ter publicado um livro romântico só com mensagens de WhatsApp. Eu podia ser o novo Nicholas Sparks.

Também não vou ser a nova Adele, que compôs todo um álbum lamechas graças a uma relação falhada. Não me arrependo de nada, não me culpo. Sei que mergulhei numa nova paixão como quem mergulha numa piscina sem verificar a profundidade da mesma. Sei que não o devia ter feito, por ter vindo a perceber depois que a piscina era afinal um poço fundo. Mas sou assim: não sei reprimir sentimentos, não consigo deixar de viver as histórias que me parecem valer a pena. Sei que antes disto tudo, mesmo não estando à procura de nada, inconscientemente queria alguém. Conscientemente, sei que a nossa felicidade nunca deve ser entregue a mãos alheias.

Agora, pela primeira vez em muito tempo sinto realmente vontade de estar sozinha. Vontade genuína - não como dantes em que, como referi, não procurava nada mas no meu íntimo queria voltar a encontrar o amor. Vou querer outra vez um dia, mas neste momento estou imersa em mim. Só vai dar aquela rapariga que veio de Lisboa para mudar de vida em Madrid, com as palavras true love tatuadas no corpo. Estou superafim superafim superafim de mim.

E não é por não acreditar no amor ou nas pessoas, porque nunca deixo de acreditar no amor e nas pessoas por causa dos erros de alguém. Apesar de este blog se chamar Porta-bagagem, sou perita em desfazer-me de bagagem. A má. E tenho pena de quem não consegue ser feliz no presente porque está atracado às histórias do passado. De quem arruina o hoje por culpa de um ontem mau. O que sei com firmeza é que o amanhã me sorri. Mas fui eu que comecei.


And I didn't want you anyway
Don't need reminding I'm your worst mistake
No, I couldn't want you anyway
Not anymore

- Jack Garratt


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