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O cabelo e a cidade

11 de novembro de 2015

A Sofia queimou a franja numa vela que o amigo que a acolhera na sua casa em Nova Iorque tinha acesa no lavatório. E, de pronto, assaltou-a uma desconfiança (depois de umas quantas mais situações chatas, é certo): "esta cidade está a expulsar-me".

Eu já fui a três cabeleireiros em Madrid, que não me conseguiram devolver a melena clara e brilhante que passeava quando pisei pela primeira vez esta calçada que não é portuguesa. Muitas outras coisas esmoreceram desde que estou aqui, de facto. Tornei-me algo desconfiada, cética quanto às boas intenções das pessoas, difícil de deixar levar, com pouca fé no amor. O que raio fizeste comigo, Madrid?

Talvez esta cidade me esteja também a expulsar, com tanto horror capilar e tantas histórias deixadas a meio, por um motivo ou por outro. Por culpa minha ou do outro. O que parecia tão perto, tão real, tão natural... ficou encravado em dias mais rápidos do que o Beep Beep, nos horários incompatíveis, na falta de interesse geral. Porque quando há interesse, há tempo. Se calhar é mesmo aquilo: he's just not that into you. A frase das pragmáticas. Das mulheres mais Mirandas do que Charlottes, com pelo na venta e pés bem assentes na terra. Mas será que não podemos voar? Esperar mais? Porque nos cortam as asas? Ou somos nós que cortamos as asas ao amor porque já entramos numa história de pé atrás, sem vestígios de crença na outra pessoa?

O problema? O problema é pensar. É estar a escrever este texto. É analisar e planear e querer arranjar soluções-corte-pela-raiz e definitivas quando alguma coisa começa, ao de leve, a cheirar mal. Temos tanto medo de sentir. Mas somos gatas escaldadas na iminência de um balde de água fria. Totalmente compreensível.

Não é só da minha cabeça: muitos amigos e amigas dizem que efetivamente o amor não tem morada na capital espanhola. Que há demasiada distração, fiesta, coisas para fazer. Que, generalizando, ninguém corre atrás nem agarra nada com força. Esta é uma cidade povoada de egoístas que dispensam o compromisso, ouve-se dizer por aí.

Entretanto, lá onde desagua o rio Tejo, os novos casais florescem e triunfam. Começam a juntar os trapinhos. Dá-se o baby boom. Alerta, o ex-namorado já apresentou a nova namorada aos pais. Almoçam em família. Enquanto eu, aqui deste lado, luto por simplesmente ser convidada para um básico jantar a dois.

[Homem, se não for pedir muito, não seja tão pouco. O convite não requer grande coisa; nem faz falta a carta em papel timbrado fechada a lacre, pode ser mesmo pelo WhatsApp. E, para já, não vou exigir todas as suas horas. Vou contentar-me com aquela horinha - mas só para já.]

Talvez devesse fazer as madeixas eu própria em casa. Tirar essa grande responsabilidade das costas de terceiros, mesmo que sejam profissionais na coisa. Ir mecha a mecha, calmamente, até chegar ao resultado pretendido. Não esperar ver a Gisele Bündchen no espelho, mas saber que aquele brilho recuperado é só meu. E, orgulhosa, descer estes cinco andares sem medo de cair e fazer as pazes com a cidade. É que no fim somos só nós três, Madrid: tu, eu e o meu cabelo.

(E a tortilha. A tortilha sempre.)
4 comentários on "O cabelo e a cidade"
  1. E num espaço dum clique tudo muda... já pensaste que em vez de madeixas, o teu cabelo pode precisar de um corte? Dizem que cortar o cabelo é sinal de mudanças na vida lolol try it! quanto ao resto, keep calm and come home ehehehhehe

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    1. Dei um ligeiro corte este fim de semana! Ventos de mudança, sim. Vamos a isso!
      És a maior, Lee <3

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  2. Respostas
    1. Of course she does! And Tino? Ohh Tino!
      SAUDADES *

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