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No dia seguinte

23 de março de 2016
No dia seguinte, voltamos a sair de casa. Ninguém fica encerrado entre quatro paredes, como ontem por lá. Foi lá que aconteceu, não foi cá.

No dia seguinte, entro na estação para apanhar o Cercanías para o trabalho. Há 12 anos, a 11 de março, foi em algumas destas estações e num destes comboios que dez bombas tiraram a vida a 191 pessoas e feriram mais 2050. Mas isso foi há 12 anos, agora há outras datas - 13 de novembro e 22 de março são apenas duas delas. São datas que se multiplicam, enchendo o calendário de estilhaços e manchas de sangue.

No dia seguinte, olhamos para todos os lados, desconfiamos de qualquer mochila. Temos a tragédia tão presente. Os grupos de polícias que vagueiam com metralhadoras em punho quase nos fazem crer que está tudo controlado. O alerta máximo continua ativo. Mas o dia de ontem lembra-nos que não. Ontem foi lá, amanhã provavelmente será aqui.

No dia seguinte, “a Europa recupera dos atentados”: as principais bolsas seguem em ligeira alta, recobrando das perdas sofridas ontem. Nós também vamos recuperando, a pouco e pouco, ainda que afogados em medo e revolta.

No dia seguinte, também a nossa vida segue. Cancelam-se algumas viagens ou concertos, mas segue. No entanto, as hashtags #jesuis... estão certas. Eu sou Paris, Ankara e Bruxelas - esteja em Madrid, em Lisboa ou na Cadriceira. E a responsabilidade está do nosso lado: a de repudiar o fundamentalismo e manter o discernimento, mesmo quando o terror insiste em tentar corromper-nos as ideias. Ontem, hoje e no dia seguinte.

Lições de espanhol #1: Cojones, cojones everywhere

22 de março de 2016
Diz-se que "a língua portuguesa é muito traiçoeira". Eu própria o dizia mas agora, por muito que puxe pela cabeça, não me lembro das razões. É que se acham que o idioma de Camões engana alguém, esperem só para ver o de Cervantes. E, pior, em temas e situações que fazem corar até o maior dos sem-vergonhas.

Já sabia falar espanhol antes de vir viver para Madrid mas, apesar de os professores de castelhano não terem problemas em atirar um bom JODER, não estava dentro de todos os pormenores e curiosidades do calão. Aprende-se rapidamente, é lógico, porque em cada esquina se ouve um COÑO. Mas nenhum português está a salvo de um vexame quando pede massa "follada" no supermercado (note-se: a massa folhada aqui chama-se "hojaldre", e massa "follada" seria uma massa que foi... como dizer? Que acabou de fazer o amor?).

Porque não quero que os meus compatriotas passem por embaraços ao visitar ou emigrar para o lado de cá da fronteira, inauguro esta secção muito especial, 100% didática. Não quero também, de forma alguma, que Cervantes dê voltas no caixão. Há que saber perfeitamente quando se deve empregar um "gilipollas" e quando se deve empregar um "hijo de puta". Faz toda a diferença.

Brackets de porcelana para o coração

17 de março de 2016

No dia em que o conheci ele levava uma camisa de flanela de aspeto quentinho (daquelas que parece que dizem “toma o meu ombro, anda, que eu sou fofinho e cómodo”), barba por fazer e um sorriso irrepreensível. Alinhado, branco, perfeito. Iria perceber a importância que a dentição tinha para ele mais tarde, quando me revelou o seu motto de macho: "Há duas coisas que se deve cuidar SEMPRE: os dentes e a namorada". Quanto ao sorriso, tudo muito bem. Lavagens frequentes, elixir, fio dental e até palito depois das refeições para soltar aquele bocado de presunto prisioneiro nas catacumbas de um molar. É, a mãe tinha-lhe ensinado bem as regras da higiene oral. Mas a saúde mental sofria de halitose, estava arruinada. Podre como um dente que não tem outra solução que não seja arrancar pela raiz. Só que a essa não há alicates que valham.

Tudo sobre as minhas mamas #1: Bra fitting

15 de março de 2016

Notas que o soutien sobe nas costas? Até com o soutien posto, sentes que o peito fica caído? As mamas saem das copas? Ficam espaços entre o soutien e o peito? As alças deixam marcas nos ombros? Ou caem com frequência?

Quando a resposta a pelo menos uma destas perguntas da Dama de Copas é sim, está na altura de ir a uma consulta de bra fitting: não estamos a usar o número ou modelo de soutien certo para as nossas "meninas". E não estamos sozinhas nisto: a loja estima que mais de 90% (!!) das mulheres não usa o soutien adequado, o que pode provocar não só desconforto mas também lesões, flacidez e descaimento.

Já há algum tempo que eu sabia que fazia parte dessa estatística e que queria ir à Dama de Copas experimentar duas dúzias de soutiens com a assessoria de uma bra fitter experiente. Nunca cheguei a fazê-lo em Lisboa (a marca está em Portugal desde 2009) mas agora, depois de ver vários artigos sobre o tema em revistas e blogs, fui pesquisar mais e descobri que há uma loja aqui em Madrid. Como estava a precisar de um soutien de desporto como manda a lei, decidi-me a ir até Goya tratar do assunto. Chega de desleixos com a lingerie! Chega de pôr as maminhas em trabalhos! Gosto demasiado delas para não lhes dar o todo o apoio necessário, nos bons e nos maus momentos.

My MAD Special Spots #2: Mercado de Motores

13 de março de 2016

Dos diversos mercados que se realizam em Madrid, o meu preferido é sem dúvida o Mercado de Motores. Isto porque aos produtos vintage e de design, às delikatessen artesanais várias, aos food trucks e à música junta-se um cenário encantador: o Museo del Ferrocarril. Enquanto fazemos compras (ou simplesmente deambulamos tentando resistir a bolos de limão com sementes de papoila e calções Levi's já gastos), podemos então maravilhar-nos com comboios centenários que um dia percorreram Espanha de lés a lés.

Talvez ainda

Já passaram cinco anos, eu sei. O comboio seguiu o seu caminho e eu não quis fazer a mesma viagem, tu sabes. Também não é segredo nenhum que não fiquei parada naquela estação. Mais faltava... Afinal, meia década dá para muito, não é? Para o bem e para o mal.

Já não aguento as ressacas como antigamente. Sou mais eu de dia do que de noite. Não consigo estar demasiado tempo na cama de manhã, ao fim de semana. Sinto remorsos profundos se salto o ginásio. Tenho um álbum de "frases motivacionais" no Pinterest, ao qual dou muita importância. E de cozinha. Já cozinho muito mais do que seitan de cebolada, para que saibas. Sonho com o dia em que vou ter forno e uma varandinha para plantar manjericão. Vivo longe, sozinha, e varro o chão se eu quiser. Mas quero sempre.

My MAD Special Spots #1: Templo de Debod

11 de março de 2016
No final deste mês faz dois anos que me mudei para Madrid. Tenho vindo a pensar nisso, neste marco, e que tenho pena de não tirar mais fotos nem escrever mais sobre a cidade. Vou escrevendo, mas essencialmente sobre a experiência de estar longe de casa, a montanha-russa de emoções, os sentimentos novos... É bom, tenho a certeza de que um dia mais tarde vou adorar recordar alguns momentos e como me senti numa fase tão life-changing para mim. Ainda assim, é certo que quando voltar para Portugal vou ter saudades disto tudo e querer ter os meus special spots perto da vista e do coração.

É a pensar nisso que dou início a esta fantástica rubrica! E em vocês, que estão a planear uma visita a Mad MAD. Quero partilhar sítios de que gosto, quer sejam restaurantes, bairros, monumentos, lojas, mercados, jardins... ou o bar mais "cutre" (chunga, em bom português) aqui da rua. Não serão sempre os espaços ou zonas mais "in" da cidade, mas simplesmente sítios que me transmitem algo a mim, independentemente das razões e de se são ou não especiais para a generalidade das pessoas.

Vou começar com um clássico, o Templo de Debod.

Foto: Porta-bagagem

8 de março

8 de março de 2016

Queria escrever alguma coisa sobre este dia, mas veio a Beatriz e fê-lo antes e tão bem.

Não, não me felicites por ser mulher, que não estou para festas. Iguala-me o salário, não me despeças porque estou grávida ou quando te peça redução de jornada, respeita as minhas decisões, o meu NÃO significa NÃO. Não quero os teus piropos, ainda que penses que me animam. Não quero voltar para casa de noite com o telemóvel na mão, “just in case”. Deixa de dizer piadas machistas com o teu bando de amiguinhos, não têm graça, não levam a lado nenhum. Não me coisifiques, não sou um cu e umas mamas. E não, a quantidade de roupa que levo vestida não te dá direito a dizer-me nem fazer-me nada. Responsabiliza-te pela criança, pelas tarefas de casa, por ir às compras, pelas vacinas, pelas reuniões da escola. Educa os teus filhos a respeitar para que eu não tenha de ensinar as minhas filhas a defenderem-se. Eu não sou a “filha de, mãe de, esposa de”. Luta comigo pelos meus direitos para que este dia deixe de existir e então felicita-me, porque esse dia será um grande dia para todos. Esse dia, sim, será uma festa.

(traduzido deste post no Facebook da blogger Beatriz Millán)