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Lições de espanhol #1: Cojones, cojones everywhere

22 de março de 2016
Diz-se que "a língua portuguesa é muito traiçoeira". Eu própria o dizia mas agora, por muito que puxe pela cabeça, não me lembro das razões. É que se acham que o idioma de Camões engana alguém, esperem só para ver o de Cervantes. E, pior, em temas e situações que fazem corar até o maior dos sem-vergonhas.

Já sabia falar espanhol antes de vir viver para Madrid mas, apesar de os professores de castelhano não terem problemas em atirar um bom JODER, não estava dentro de todos os pormenores e curiosidades do calão. Aprende-se rapidamente, é lógico, porque em cada esquina se ouve um COÑO. Mas nenhum português está a salvo de um vexame quando pede massa "follada" no supermercado (note-se: a massa folhada aqui chama-se "hojaldre", e massa "follada" seria uma massa que foi... como dizer? Que acabou de fazer o amor?).

Porque não quero que os meus compatriotas passem por embaraços ao visitar ou emigrar para o lado de cá da fronteira, inauguro esta secção muito especial, 100% didática. Não quero também, de forma alguma, que Cervantes dê voltas no caixão. Há que saber perfeitamente quando se deve empregar um "gilipollas" e quando se deve empregar um "hijo de puta". Faz toda a diferença.

Inspirada por um texto famoso de Arturo Pérez-Reverte, vou começar pelos COJONES (calma, não é isso), a que o escritor chama "a palavra do castelhano com mais aceções". Os muitos usos e sentidos deste termo demonstram bem a grande riqueza da língua espanhola. Com os atributos masculinos - os "huevos" - podem transmitir-se inúmeras ideias. Se não, vejamos a...

Radiografia dos cojones


O significado da palavra muda dependendo do número que a acompanha: 1 cojón é algo caro ou dispendioso (“valía un cojón”), 2 cojones significa coragem (“tenía dos cojones”) e 3 cojones serve para demonstrar desprezo ou indiferença ("me importa tres cojones"). Agora, se o número em questão é muito grande, falamos na ideia de dificuldade. Por exemplo, “lograrlo me costó mil pares de cojones”. A mim, está-me a custar um milhão de pares de cojones perceber isto.

Uma fácil: "tener cojones". É o equivalente ao nosso "ter tomates", significa valentia. Mas se o usamos numa exclamação (“¡Tiene cojones!”), então mostramos surpresa.

Se os cojones são postos em cima de uma mesa (por exemplo, "El comité de empresa puso los cojones encima de la mesa y dijo que no a todas las propuestas"), quem o faz mostra atitude ou atrevimento. Enquanto escrevo isto, não consigo deixar de criar uma imagem mental, e não é bonita!

Se queremos apostar, é muito simples: “me corto los cojones”. Mas se a ideia é ameaçar, então dizemos "te corto los cojones”. Afinal, quem é que precisa de testículos? Acho que se tivesse um par deles já me estava a encolher na cadeira.

Com o verbo tocar, o tempo verbal utilizado também vai alterar o significado do termo. No presente, denota incómodo, como em “Mi jefe me toca los cojones”. Mas se sou eu que me toco a mim própria (nas minhas balls imaginárias, claro), usando o reflexivo, é porque sou uma grandessíssima preguiçosa: "No hago nada más hoy, me toco los cojones”. Quem diria? E no imperativo mostramos também surpresa. “¡Tócate los cojones!”

Mais expressões e significados?

Acojonado = com medo
Descojonado = cansaço ou riso
Cojonudo = perfeição
Cojonado = indolência
De cojones = com sucesso/bem ("me salió de cojones") ou em grande quantidade (“hacía un frío de cojones”)
Por cojones = obstinação/teimosia ("lo haré por cojones")
Hasta los cojones = limite de resistência (“estoy hasta los cojones de oírte”)
Con cojones = valor ("era un hombre con cojones”)
Sin cojones = cobardia (“era un hombre sin cojones”)
Cojones morados (roxos) = ter frio
Cojones cuadrados = estar cansado (“tenía los cojones quadrados”)
Cojones pelados = desgaste ("tenía los cojones pelados de tanto repetirlo")
(...)

Haveria ainda tanto para dizer, mas acho que é suficiente para concluirmos que será difícil encontrar outra palavra em espanhol (ou noutros idiomas) com um número maior de aceções. Parafraseando Pérez-Reverte, a ver quando é que Shakespeare ou Joyce conseguiram, com todo o seu Oxford, uma palavra com tanta variedade e riqueza.

E mais: uma palavra universal e sem classismo, que fica bem tanto na boca de um analfabeto como na de um qualquer erudito. Os cojones são para todos(as) e é por isso que estão um pouco por toda a parte. ¡Ole mis cojones!
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