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Profissão: influencer

22 de novembro de 2016


“Anita, o que queres ser quando fores grande?”
“Influencer, mamã. Quero ser influencer.”

É, já lá vai o tempo da Anita no ballet e da Anita mamã. INFLUENCER é agora a palavra de ordem, o apogeu do sucesso pessoal na Internet e uma profissão com todas as letras para cada vez mais pessoas.

“Digital influencer”, escrevem mesmo algumas alminhas na bio do Instagram, roçando um bocado o ridículo (vá lá, chamem-se sonhadores, viajantes, artistas ou cozinheiros - essa descrição soa pedante e é desnecessária). O que vestem vira moda. O que comem entra de imediato na lista de compras do supermercado dos followers. Os sítios onde vão tornam-se hot spots in town. Os treinos e os snacks pós-treino são analisados com olho de lince. E os outfits. Qual é a cor desse batom? De onde é o casaco? Podes-me dizer como conseguiste esse revirar tão subtil na unha do dedão grande do pé? Amiga, vou HOJE a essa manicure.

Eu acho lindamente, a sério que sim. Parece-me fantástico uma pessoa “normal” chegar a ter esse grau de visibilidade e poder ganhar dinheiro com isso. Tiro o chapéu a quem, do nada, captou a atenção de marcas poderosas, que conseguem agora estar perto dos clientes e potenciais clientes sem mais intermediários (não tiro o chapéu a “digital influencers” que já eram famosos por outros motivos, normalmente por trabalharem em televisão).

Mas tenho de admitir que este panorama me mexe um bocado com os nervos. Ou que, pelo menos, num dia bom, me faz rir. Primeiro porque essa adoração cega por parte dos seguidores provoca bastante comichão a esta mente punk. Segundo porque aparentemente toda a gente quer ser influencer - e acha que o que veste, come e tem a dizer ao mundo é relevante. NEWS FLASH: nem sempre é assim. E menos ainda quando o produto que apresentam é uma cópia barata do que já se viu no blog ou no Instagram de alguma das que estão “lá em cima”. Criticar os looks das passadeiras vermelhas num “tom Pipoca Mais Doce” é o grande clássico das copionas de serviço. Mas há tantos outros.

É certo que podemos sempre ignorar tais bloggers. Ainda assim, com toda a estratégia de promoção que levam a cabo, é fácil que nos atirem esse conteúdo pobre e indesejado para cima um dia ou outro. Às vezes, quando estamos com tempo, lá clicamos num link para um post ou entramos no perfil de Instagram de alguém que nos seguiu só para ganhar mais um seguidor (sabemos isso quando deixam de nos seguir passado uns dias - dá para ser mais patético?). É difícil para algumas pessoas entender que só um conteúdo original, de qualidade e constante vai no futuro possibilitar que tenham uma base de leitores.

Regra geral, os produtos fabricados não vão muito longe. As grandes bloggers, tanto portuguesas como internacionais, têm em comum o facto de terem criado um blog por gosto, sem pensar que um dia teriam um retorno por isso. Um gosto pela escrita, pela moda, pela cozinha - tanto faz. Destacaram-se porque desbravaram caminho sendo elas próprias, com mais ou menos fãs do seu estilo de fazer as coisas. “Be yourself; everyone else is already taken”, dizia o Oscar Wilde, lembram-se?

O terceiro ponto que me chateia no assunto está muito relacionado com isto: haver quem ache que todos os que têm um blog querem ser famosos e influencers. Ao falar do meu blog com amigas, muitas vezes me perguntam: “Mas o que pretendes com o teu blog? Porque se queres ganhar dinheiro, vais ter de ser comercial.” Não, não e não. Eu só quero escrever e que me leiam. Não quero fazer disto profissão, nem poderia. E nem se trata de aversão a falar de marcas, porque falarei sem problemas se me apetecer divulgar as maravilhas de algum produto (MARCAS DE CREMES: se me estão a ler, sou a vossa miúda). Simplesmente não tenho perfil nem paciência para ambicionar influenciar alguém a esse nível. Para escrever com muito método, para me dedicar. Tenho tantas coisas mais às quais me quero dedicar. Por muita importância que este blog, eternamente sem rumo, tenha para mim.

Se sinto inveja de quem vive permanentemente em viagem graças ao seu blog? Sinto, sim senhora (agora devia acrescentar “inveja da boa!”, para ser fixe). Se queria receber cremes e bolachas biológicas no correio? Queria, pois. Mas não vai acontecer. Mais facilmente me vejo em casa a tocar L7 do que na apresentação da parceria da H&M com a Kenzo. Janto saudável mas não posso mostrar-vos os meus pratos feios, nem os quatro Ferrero Rocher que como a seguir. Saio de cara lavada e com o casaco da coleção outono-inverno 2009 da Zara vestido. Prefiro uma taberna castiça a um restaurante da moda. E muitas das vezes em que devia (devia?) estar a escrever estou num bar a beber cerveja. Talvez possa ser a influencer da chungaria, sim.

Brincadeiras à parte, a verdade é que ainda acredito que tenho algo para dizer ao mundo, mesmo que seja um mundo de três gatos pingados. O meu problema é mais querer fazer muito do que mandriice. Espero um dia influenciar uma pessoa que seja com algum pensamento ou ideia que transmita, não um verniz que esteja a usar. Uma certeza que tenho é que vou continuar a escrever por gosto e com a pele da Meg vestida - não encontro mais ninguém aqui dentro!
4 comentários on "Profissão: influencer"
  1. Adoro :)
    Lembrei-me das recomendações que te dão quando estás grávida - quando te dizem que há alguém que tens mesmo de seguir porque têm uma conta de Instagram com fotos de bebés muito fofinhos. De repente tudo é invadido por bebés e blogs de mães e há normalmente 2 tipos: as que falam da maternidade e colocam fotos do outfit com que vão ao ginásio depois de comer um pão de banana caseiro (tudo enquanto carregam o filho no sling); e as outras: as que acham que as primeiras são um produto fabricado, criticam e gabam-se de tudo o que não conseguem fazer depois de serem mães, as influencer-trashers!

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    1. Ser mãe tem um grande potencial comercial, todas as outras mães gostam de ler as peripécias e conselhos. Quanto a influencer-trashers, isso eu até podia ser... mas ainda tenho de encontrar o meu nicho! :p

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  2. "E esse peido é de onde???" "Como é que o soltas??" ��

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    1. Ahah! Eu alucino com algumas perguntas. Até o casaco mais básico e o batom vermelho de toda a vida querem saber de onde é. :)

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